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(Source: 8tracks.com)
Valor interior
A inteligência é uma característica humana. Talvez o que diferencie uns e outros é a quantidade de inteligência, o coeficiente.
Alécio, além no nome um tanto incomum, acumulava conhecimento igualmente raro, escrevendo sua primeira tese científica aos 30 anos, além dos títulos que recebera até ali. A dedicação desde pequeno e o gene herdado do pai, um filósofo notável de uma grande universidade gaúcha, eram alguns dos ingredientes que o tornaram alguém sábio. Talvez pelo grande investimento intelectual, tornara-se também um homem franzino, pouco vistoso, muitas vezes despercebido socialmente, sendo apenas reverenciado nos congressos após discursos de intensidade ímpar. Certamente aqueles momentos elevavam sua estima, mas por traz daquele grande intelecto, morava uma pessoa que, como todo ser humano, queria ser feliz em todos os âmbitos da vida. Casar e ter filhos, fazia parte logicamente de seu projeto de vida. Indagava-se quase diariamente o que fazer para atingir tais objetivos e, mesmo com enorme inteligência, Alécio se via incapaz de responder a si.
Numa manhã de domingo, caminhando nas imediações de um conhecido parque, observou uma família reunida para um momento feliz. Atento, observou e se projetou naquela cena até que o velho jornaleiro, seu amigo de muito tempo, o interrompeu comentando: “bonito, não é, doutor Alécio?”. O homem franzino se voltou para o velho amigo, respondeu positivamente e questionou como poderia ter aquilo. Foi apenas consolado pelo vendedor de jornais com um “esse dia chegará”. Pensou consigo que precisava ser notado e, naquela tarde, foi ao shopping, comprou roupas vistosas, acessórios caríssimos e convenceu-se de que o momento era aquele.
A semana foi de folga no trabalho, concedida por ele mesmo, já que conduzia seus compromissos profissionais como desejava. Frequentou lugares dos mais variados. Conheceu pessoas com os mais diversos interesses, mas nenhuma mulher lhe dara muita atenção. Na sexta-feira deu-se por vencido e decidiu abortar aquela missão. No piano bar de um clube conhecido, solicitou um drinque dos mais alcoólicos. O sujeito do bar, atenciosamente o serviu e o alertou. Estava sentado ao lado de uma moça bastante atraente, mas o momento lhe deixara sem condições de agir. Após o aviso do sujeito sobre o drinque que pedira, discorreu brevemente sobre os valores da vida. Vestido com um terno impecável e vistoso, comentou com o sujeito do outro lado do balcão seus pensamentos sobre a felicidade. A moça, de nome Mônica, passou a notar sua presença. Acabara de divorciar-se, tinha os olhos marejados e segurava um copo com algo que evaporava tão rápido quanto a bebida que Alécio ingeria. Enxugando as lágrimas, olhou para o homem engravatado ao seu lado e lhe dirigiu em tom gaguejante um “bonitas palavras”. Alécio olhou à sua esquerda, viu os olhos castanhos reluzirem e passou a dizer aqueles pensamentos para Mônica. Foram duas, três horas de conteúdo até que a moça enfim o calara com um beijo. Alécio havia descoberto a verdadeira forma de conquista. Atônito e com o coração pulsando rapidamente, foi tomado por um sentimento que nunca sentira. A inteligência acabava de lhe proporcionar mais uma alegria, desta vez nobre e única. Mais tarde soube que naquela noite, estava diante da mãe de seus filhos Luca e Leon, os novos prodígios.
A casa amarela no alto da colina

(Imagem: ilustrativa - adaptada da internet)
É parte do ser humano eleger símbolos, talismãs ou simplemente objetos e imagens, para remeter a algo que nos é importante. Foi por um acaso, que certa vez observei da janela do apartamento que moro, uma casa amarela. Casa simples, mas pintada de um amarelo ouro muito bonito. Estava posicionada em um lugar que talvez há anos atrás tenha sido um mirante. Da janela, eu podia observá-la na altura dos olhos, o que me indicava que estava na mesma altura que sexto andar do prédio. Com uma visão romanceada e pela localização alta, passei a chamá-la de “casa amarela no alto da colina”. E assim, adotei aquela imagem, associando ela a coisas que aprecio. Um lar harmônico, uma família unida, um espaço digno, de comunhão comum, de alegria e amor. Eis ali a referência, a casa amarela.
Pois um dia de sol, despertei tarde, um sábado. Abri a janela e busquei a imagem da casa amarela. Varrendo com os olhos vejo uma casa branca no lugar da casa amarela. Por um momento me espanto: será que meus olhos me engararam até ali? Mas pouco depois avisto um sujeito em uma escada. A casa estava em reforma. Me questionei se a imagem que eu tinha até ali necessitava de alguma reforma e conclui que não. Passados alguns dias, já conformado pela perda daquela referência, abro a janela e avisto novamente a casa amarela. Desta vez mais intensa, dourada, despontando entre outras casas que pareciam voltadas para ela, como que contemplassem aquela que me inspirava. E concluo assim que mesmo um lar harmônico e feliz, requer um revigoramento de tempos em tempos, como uma planta que precisa ser regada sempre. Assim é na vida, assim é no mundo, assim é nos lares.
Felipe Martinelli
Macorujá

Muitas das coisas que vivi quando pequeno fazem parte de uma memória que não é minha, mas da minha mãe. Ela quem me contou os episódios que protagonizei, mas que sequer me recordo. Momentos hilariantes, outros com certo drama como a queda do cadeirão de alimentação. As peripécias que surpreendiam, enfim, a evolução. E foi por uma dessas histórias que soube de um detalhe que me chamou a atenção. Calma, já explico o porquê. O fato é que no meu vocabulário havia a tal palavra “leãoceronte”. Hoje, se ouvisse tal expressão, logo presumiria que tratava-se de um cruzamento de leão com rinoceronte. Mas não. Esta era a minha referência apenas para o rinoceronte. E eu era convicto a ponto de me pedirem para dizer “rinoceronte” e eu repetia imediatamente: “leãoceronte”. A mecânica era confusa, mas a convicção era certa. Agora explico o porquê lembrei disso. Há pouco tempo, no carro com o meu filho, perguntei: “Pedro, você quer suco de que?”. Ouvi a resposta com a mesma convicção que eu tive em relação ao “leãoceronte”. Ele imediatamente verbalizou sua resposta: “macorujá”. Insisti: - de que? Ele: “macorujá”. Nem arrisquei corrigí-lo, afinal passado algum tempo, quando cresci e atingi lá meus 6 ou 7 anos, o “leãoceronte” se transformou no “rinoceronte”. Certamente o “macorujá” vai amadurecer aos poucos, logo se tornando o “maracujá”.
Felipe Martinelli